domingo, 7 de outubro de 2007
Chile e os cem anos – e mais - de solidão, ou: A Finis Terrae (Fim da Terra)
Nós aqui do Novo Mundo sabemos. Os Mexicanos estão bemmmmmmm ao norte, é verdade; e dizem eles: Oh México ! Tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos... e não é mesmo?... Os xicos têm uma graça popular de poetizar sua condição geográfica; a relação com o mapa é um gracejo cheio de ternura: Oh, México! Maçã mordida da beira do Atlântico...
E tem outro hermano que gosta de falar de sua geografia: é o Chile... E não é de se espantar não é mesmo? A geografia do país já é uma brincadeira em si para todo aluno de primeiro grau. Comprido, estreito e todo margeado pelas cordilheiras a leste.
Os chilenos têm uma anedota pra isso, eles dizem que as cordilheiras foram dadas ao Chile por Deus para separá-los dos hermanos argentinos.
Dizem eles: Oh Chile! Tão perto de Deus, tão longe dos argentinos...
Brincadeiras a parte, o que vem ao caso aqui é outra questão... uma que já ta manjada nesse blog: O que fez dos vinhos chilenos tão especiais a ponto de botarem medo nos Chateau Petrus de 25.000 dólares dos franceses? A resposta é simples: Geografia!
O Chile está protegido da maior desgraça
que assombrou os vinhedos no último século: A Phyloxerra, uma peste contra as uvas viníferas que se originou no cultivo dos brothers americanos e se tornou epidemia em toda Europa, incluindo as mimadas plantas que fazem do Chateau Petrus um dos vinhos mais caros do mundo, presente nas cartas de vinho de restaurantes . Resultado? Só o Chile conseguiu se manter protegido da epidemia devido ao seu isolamento geográfico. Ao norte, a produção vinífera é protegida pela aridez do deserto, a oeste pelo marzão e ao sul e leste pela cordilheira dos Andes
Mais uma vez, dizem os chilenos: Oh Chile! Fim do mundo, lá nos recônditos da América, mas ô terra boa pra plantar uva.

O vinho Cousiño-Macul “Finis Terrae” (fim do mundo) é um "assemblage" (mistura de uvas, ou “corte”) de vinhos finos Cabernet Sauvignon vindos de vinhedos de mais de 60 anos selecionados por séculos. Note que o que importa não é que os vinhos em si sejam velhos, ou seja, esqueça o fato de que um vinho qualquer tal, etc. e tal (digamos, da década de 80, 70 ou 60) é maravilhoso porque ta velho. O que vale é a idade da véia planta, que tá lá plantada serenamente desde que os primeiros funcionários da empresa vinícola decidiram inventar a piada de que as cordilheiras separam o Chile dos hermanos argentinos. O Finis Terrae é uma especiaria do Novo Mundo, produzida nos mesmos tonéis de que a Cousiño-Macul se utiliza para fazer o seu vinho mais nobre, o Lotta Reserva Especial. Mas claro, o custo-benefício do Finis Terrae é bem melhor.
Dica importantíssima: Qualquer vinho chileno da safra de 2004 é estupendo. Foi a melhor safra chilena depois de 30 anos de produção, alcançando notas (na revista Wine Spectator) muito melhores do que aqueles francesinhos metidos a besta.
Não tenha medo, gaste seu dinheiro em chilenos 2004 sem dó. 18:20 |